Desde 2012, a bacia do rio São Francisco vem sofrendo com chuvas abaixo da média histórica. Com isso, foram registrados os níveis de reservatórios mais baixos da história, o que coloca em risco os múltiplos usos da água. Desde então, políticas vêm sendo adotadas para auxiliar na recuperação do rio. Em 2013 a Agência Nacional de Águas (ANA) instalou a Sala de Crise do São Francisco para gerenciar os principais agentes públicos e privados afetados. Isso ajudado a viabilizar a tomada de decisão para a mitigação dos impactos resultantes dessa seca severa. Em dezembro de 2015, o subsistema Nordeste chegou ao seu menor valor, de 4.9% da sua capacidade máxima. Enquanto, em maio deste ano, esse subsistema atingiu 91.7% de sua capacidade.

Quais foram os principais fatores que influenciaram a recuperação do Rio São Francisco?

Em novembro de 2019, o sistema de monção da América do Sul começou a mostrar sua cara, o que já é esperado para um período úmido normal. Um sistema de monção é definido como uma inversão sazonal da direção do vento, que ocasiona em uma transição do período seco para o chuvoso. Com essa reversão dos ventos é esperado que, parte da umidade da Amazônia seja transferida para a região SE. Durante centenas de anos, essa configuração possibilitou que a atmosfera esculpisse o solo, favorecendo o desenvolvimento dos principais reservatórios hidro energéticos do Sistema Interligado Nacional (SIN) no sul de Minas Gerais, norte de São Paulo e Goiás.

A Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) é o principal sistema que ocasiona chuva no Brasil e é decorrente desse sistema de monção. Basicamente através de um canal de umidade oriundo da Amazônia esse sistema permanece estacionado em forma de uma banda de nebulosidade, que ocasiona chuva por mais de cinco dias consecutivos. Depois de alguns anos mais secos, neste último período úmido (novembro a março) foram observados oito eventos que tiveram a formação desse transporte de umidade num total de 35 dias, sendo que, desses oito eventos, quatro foram considerados ZCAS. No mesmo período, entre os anos de 2018/2019, foram contabilizados sete eventos de zonas de convergência de umidade, num total de 27 dias com essa formação, sendo somente três ZCAS. Apesar da ZCAS ter uma posição climatológica que seria uma linha reta entre o estado do Rio de Janeiro até a Amazônia, esse posicionamento pode variar. Em alguns eventos ela ocorre posicionada mais ao sul sobre o estado de São Paulo e às vezes mais ao norte sobre a Bahia.

Com uma extensão de 2700 km, o padrão de chuva sobre a bacia do Rio São Francisco muda consideravelmente no decorrer do leito do rio. Começando com um clima temperado na cabeceira com volumes anuais médios de precipitação de 1413 mm, esses volumes vão diminuindo drasticamente à medida que se desenvolve a jusante na direção do equador. Quando chega ao Semiárido, em Juazeiro, a média anual é de apenas 422 mm. De uma maneira geral, em fevereiro deste ano houve uma maior permanência desse evento sobre o alto e médio São Francisco. Já em janeiro e março, o trecho do São Francisco Baiano e centro norte de Minas Gerais apresentaram valores acima da média histórica dessas regiões.

Nos últimos anos foram feitos muitos estudos sobre a influência do El Niño quanto às variações nas chuvas do Brasil. No entanto, esse fenômeno pouco influenciou nosso regime de chuva este ano. Em condições fracas, esse fenômeno acaba tendo um papel secundário e outras forçantes podem atuar mais significativamente. Ao contrário do El Niño, pouco se sabe sobre a influência do Oceano Atlântico no padrão de chuva do Brasil. O que se sabe é que este ano as temperaturas do Atlântico tropical estiveram acima da média durante todo o verão, contribuindo para que sistemas frontais se deslocassem mais ao norte em busca de um oceano mais quente, favorecendo de certa forma uma permanência das ZCAS sobre o NE. Outra consequência desse aquecimento foi um posicionamento mais ao sul de outro sistema de verão, a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), que nada mais é que uma banda de baixas pressões, que acompanha a marcha sazonal do sol e circunda todo o planeta Terra, ficando mais ao sul durante o verão no Hemisfério Sul.

De uma maneira geral, a atmosfera teve seu papel fundamental para a recuperação do rio São Francisco, mas outros fatores também tiveram a sua parcela de contribuição. Em 2017, considerando o agravamento das condições hidrológicas e de armazenamento, a Resolução ANA N° 1.943, de 6 de novembro de 2017, autorizou a redução da vazão mínima defluente à Sobradinho e Xingó de 1.300 m³/s para 550 m³/s, no período de 1º de dezembro de 2017 a 30 de abril de 2018.