A pandemia trouxe algumas incertezas para os executivos do setor de energia, bem como a retomada do consumo, a inadimplência do mercado, o socorro financeiro às empresas e o avanço do mercado livre de gás natural. Portanto, para entender quais são os possíveis caminhos desse novo e inédito cenário, o décimo primeiro episódio do Giro Energia, podcast desenvolvido e patrocinado pela Ecom Energia, conversou com David Zylbersztajn, primeiro diretor da Agência Nacional do Petróleo e condutor das privatizações no Estado de São Paulo na década de 90, e José Luiz Alquéres, conselheiro da Enauta, Energisa e Grupo Monteiro Aranha.

Pós-pandemia: quais são as perspectivas e novos os caminhos para o setor elétrico?

José Luiz Alquéres é um dos maiores especialistas do setor elétrico do Brasil. Foi presidente do conselho da Eletrobras em duas ocasiões e hoje é conselheiro da Energisa, da Enauta e do Grupo Monteiro Aranha. De acordo com o executivo, a retomada dependerá de investimento direcionado ao tema da sustentabilidade e redução da desigualdade. Assim como, os projetos de infraestrutura terão de tocar nesses pontos.

“Nos conselhos em que participo não há uma opinião unânime entre os conselheiros, então as empresas não estão refazendo seus planejamentos de expansão. Elas fizeram um gabinete de guerra e adotaram uma política de contenção de investimentos porque, por exemplo, no setor de óleo e gás a queda do petróleo foi de mais de 30%. Cautela é a palavra de ordem. Eu, particularmente, acredito que a retomada dependerá de atitude forte de investimento do governo direcionado ao tema sustentabilidade e redução da desigualdade. Os projetos de infraestrutura terão de focar nisso. Eu imagino que uma retomada deve levar três anos”, pondera o executivo.

Ainda assim, sobre a inadimplência e a conta COVID-19, outros dois temas relevantes, José Luiz analisa: “Inadimplência sem dúvidas é um ponto preocupante, porque alguns órgãos estão sinalizando um vale tudo nesse campo. Ela poderia ser tolerada em baixa renda e em segmentos industriais mais sofridos, mas o lado penalizado não pode ser a atividade produtiva. Já sobre a conta COVID-19, acho que pode superar esse valor de R$ 15 bilhões e também poderá contemplar aumento de prazo de concessão. Acho que não haverá uma saída diferente disso, até porque extensão de prazo não mexe na tarifa”.

David Zylbersztajn comenta o momento atual

Em suma, para completar o episódio conversamos com David Zylbersztajn, que na década de 90 conduziu o processo de privatização do setor elétrico no Estado de São Paulo, tendo ao seu lado como seus assessores nomes como Wilson Ferreira Junior e Eduardo Bernini. De fato, ele foi o primeiro diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, teve papel relevante no racionamento de energia elétrica em 2001 e, atualmente, é presidente do conselho da Light. Em resumo, David acredita que os efeitos da pandemia ainda poderão ter mais impacto sobre o setor nos próximos meses e que o mercado livre de gás natural ainda levará tempo para ser destravado.

“Sobre a retomada do consumo no Brasil há muitas dúvidas. Existem muitas perguntas: Quando termina a pandemia? Como as pessoas se comportarão depois de terminada a pandemia, como ficará o trabalho nos escritórios e como ficará a renda? Quais são as profissões que irão prevalecer. Os efeitos econômicos ainda são desconhecidos, mas muitas empresas não deverão sobreviver. Como ficará a renda da população? Isso poderá ter um impacto sobre a inadimplência e sobre as empresas. O ambiente em que as pessoas e as empresas estão poderá sofrer uma profunda revolução, uma reviravolta mesmo. Nesse momento, a cautela é enorme”, observa David Zylbersztajn.

As reflexões sobre o mercado livre de gás natural

Similarmente, o executivo faz comentários acerca do destravamento do mercado livre de gás natural. “O gás natural poderia ser um energético muito competitivo. Está se buscando a abertura do mercado, mas nesse momento há muitas incertezas no horizonte. As empresas não sabem se irão sobreviver. Além disso também há questões regulatórias, como o livre acesso aos dutos e gasodutos, que ainda não foi resolvido. Por fim estamos falando de investimentos grandes a serem feitos ainda para destravar o segmento. Há incertezas sobre o supridor de última instância. Há um conjunto muito maior de incertezas do que certezas e nesse momento a gente vive uma incógnita”.

Sobre o que mais esses especialistas discutiram no Giro Energia?

Pelas entrevistas pudemos ouvir que há várias incertezas ainda no horizonte de curto, médio e longo prazo, mas a pandemia deverá forçar as empresas e os consumidores a repensarem a forma de atuar. As empresas deverão manter essa posição de cautela nos próximos meses diante de um consumidor ainda retraído. O impacto sobre o mercado regulado poderá ser maior, se acaso a pandemia continue causando vítimas.

A princípio, a agenda de privatizações e o mercado livre de gás natural deverão continuar envoltos em incertezas. A precificação dos ativos e do gás se torna ainda mais desafiadora no cenário atual em que a palavra de ordem é sobrevivência.

Diante desse cenário, ficam algumas perguntas:

  • A inadimplência em alta forçará governo e empresas a criarem alguma solução para atenuar o problema?
  • A retomada do consumo levará quanto tempo?
  • O mercado livre de gás continuará sendo uma promessa?

As respostas para essas perguntas estão no Giro Energia! Ouça agora: