A perspectiva de retomada da carga de energia diante do cenário atual

Mariane Adão
  • 13/08/2021
  • 4 min de leitura

O Brasil passou por um longo período de retração de consumo, durante a pior fase da pandemia de COVID-19 no ano passado. Agora, observamos um ritmo acelerado de recuperação da carga de energia em 2021, quando comparado ao ano anterior.

Dessa forma, o crescimento das atividades dos setores de Comércio e Serviços e a manutenção do ritmo elevado da produção industrial resultaram em um aumento da carga superior à prevista pelos órgãos responsáveis no setor elétrico.

De acordo com a 2° Revisão Quadrimestral – PLAN 2021- 2025 da EPE, a expectativa para o segundo semestre é de aumento de 1.001 MWmed. Este aumento, portanto, está atrelado ao resultado acima do esperado para o PIB do 1º trimestre. Com a revisão da projeção de PIB de 2021, também houve aumento da projeção de carga de energia. Como resultado, ela passa de 3% para 5%, em consequência do avanço na vacinação em massa e da retomada do consumo.

O impacto da retomada da carga de energia em um momento de risco de racionamento

Ao longo dos últimos anos, a precipitação observada em algumas das principais bacias hidrográficas integrantes do Sistema Interligado Nacional (SIN) tem se mostrado significativamente abaixo da média histórica. Dessa forma, o déficit de precipitação acumulado nos últimos 10 anos em algumas bacias chega a alcançar um valor maior do que o total de chuva que ocorre na média em um ano.

Diante desse cenário hidrológico desfavorável, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tomou algumas providências. A fim de mitigar o risco de racionamento e garantir que a demanda prevista será atendida, o operador propôs as seguintes recomendações:

  • Flexibilização do nível mínimo da UHE Ilha Solteira abaixo da cota 325 metros. Com isso, espera-se consequente impacto na operação da UHE Três Irmãos, localizada na bacia do rio Tietê;
  • Avaliação de estratégias de utilização dos reservatórios das usinas hidrelétricas das bacias do Rio Grande e do São Francisco. A ação deverá acontecer em conjunto com a Agência Nacional de Águas (ANA) a fim de garantir a segurança do atendimento eletroenergético do País;
  • Postergação das manutenções programadas para 2021, conforme solicitado pelo ONS por meio da Carta CTA-ONS DOP 1448/2021;
  • Operacionalização das medidas para aumento da disponibilidade energética. Em particular aquelas relacionadas à Portaria MME 13/2021, bem como ao dispositivo objeto da Consulta Pública MME 110/2021.

Além das recomendações do ONS, em junho de 2021 foi instituída a Câmara de Regras Excepcionais para Gestão Hidroenergética (CREG). O grupo de trabalho tem como principal objetivo fortalecer a governança para o enfrentamento da crise hídrica no país. Além disso, também tem a missão de garantir a segurança e a continuidade do suprimento de energia elétrica no Brasil.

Os riscos e previsões desse cenário

Diante dessas medidas, a probabilidade de o aumento de carga ocasionar a falta de energia é baixa. Isso ocorre porque estão sendo tomadas as ações imediatas. Além disso, a matriz energética brasileira possui uma representatividade de 35,1% de outras fontes de energia que não utilizam os reservatórios em sua geração. Por exemplo: fontes renováveis (solar, eólica e gás natural) e as termelétricas.

Vale ressaltar que, diferente da crise hídrica que ocorreu em 2001, na qual foi necessário diminuir o consumo, a crise do setor elétrico vivenciada neste ano foi influenciada pelo baixo volume de chuvas. Essa situação gerou, portanto, a queda de volume nos reservatórios das hidrelétricas. Logo, o principal risco desse cenário é a falta de potência em um momento de pico de demanda.

Para ajudar a desestressar o sistema elétrico, o governo apresentou aos consumidores eletrointensivos o Programa de Resposta da Demanda. Essa resolução tem o objetivo de deslocar a intensidade do processo fabril para outros horários. Até o momento, o Programa de Redução Voluntária da Demanda segue sem previsão de início. Mas, a expectativa é que o projeto comece ainda este ano.

Por fim, tudo indica que se o governo tiver sucesso nas ações tomadas para mitigar a crise, não haverá falta de abastecimento de energia nos próximos meses.

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